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A DANÇA HAVAIANA – HULA

A linguagem sagrada do povo Kanaka Maoli

A Hula é a dança tradicional do povo originário do Havaí, os Kanaka Maoli, e representa muito mais do que uma expressão artística. Ela é o principal meio de preservação, transmissão e vivência do conhecimento ancestral havaiano. Em uma cultura originalmente oral, a Hula tornou-se o arquivo vivo da história, da espiritualidade, da genealogia, da mitologia e da relação sagrada entre o ser humano, a terra e os deuses.

Por meio do corpo em movimento, da voz cantada e do ritmo, a Hula narra acontecimentos históricos, mitos de criação, linhagens familiares, feitos de chefes, batalhas, fenômenos naturais e ensinamentos espirituais. Cada gesto carrega significado, cada passo é palavra, cada sequência é uma narrativa completa. Por isso, a Hula é compreendida como narração em movimento, e não apenas como dança acompanhada de música.

O rei David Kalākaua, grande patrono do renascimento cultural havaiano, sintetizou esse entendimento ao afirmar:“Hula é o batimento do coração do povo havaiano.”

A Hula não é espetáculo, nem entretenimento vazio. Ela é oração, história, filosofia e identidade. Mesmo aqueles que não compreendem a língua havaiana ou o significado literal dos cantos sentem sua força, pois o mana se manifesta através do corpo, do som e da intenção.A Hula sobreviveu à colonização, à proibição da língua havaiana e à tentativa de apagamento cultural. Permanece viva porque é mais do que dança:é a alma do povo havaiano em movimento.

HULA COMO PRÁTICA ESPIRITUAL

A Hula é, em sua essência, uma prática profundamente espiritual. Ela nasce da reverência à natureza e aos ciclos da vida. No pensamento havaiano, a terra (ʻāina) é aquilo que sustenta o ser humano, e tudo o que existe carrega espírito e energia vital.

Dançar Hula é estabelecer um diálogo direto com o invisível. Muitas Hula são oferendas dedicadas às divindades do panteão havaiano, como Laka, patrona da Hula, e Pele, deusa dos vulcões e da transformação. Nessas danças, cada movimento é uma prece, cada passo é um pedido, um agradecimento ou uma invocação.

Nos tempos antigos, erros durante uma apresentação ritualística eram considerados quebra do sagrado e poderiam invalidar toda a cerimônia. Por isso, os praticantes passavam por períodos de resguardo espiritual, jejum, isolamento ritual e preparação sob orientação de um Kumu Hula. A formação não era apenas técnica, mas moral, espiritual e ética.

A Hula não existe sem espírito. Ela é o veículo pelo qual o sagrado se manifesta no corpo humano.

A HULA NO HAVAI ANTIGO: RELIGIÃO EM MOVIMENTO

Antes do contato com o Ocidente, a Hula era uma prática religiosa central na sociedade havaiana. Era realizada em heiau (templos), em rituais conduzidos por sacerdotes e mestres de dança que acumulavam funções espirituais e educativas.A Hula preservava a memória dos ancestrais, mantinha viva a genealogia (moʻokūʻauhau), fortalecia a relação com os deuses e sustentava a ordem espiritual da sociedade.

 

O hālau hula, escola tradicional de Hula, funcionava como um verdadeiro centro de saber indígena, onde os alunos aprendiam disciplina, respeito, responsabilidade (kuleana) e retidão moral (pono).O corpo do dançarino era compreendido como um canal entre o mundo físico e o mundo espiritual. Por isso, a execução da Hula exigia alinhamento ético, clareza de intenção e profundo respeito aos protocolos tradicionais.

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Hula Kahiko

é a forma antiga e tradicional, ligada aos rituais, à espiritualidade e aos protocolos ancestrais. É executada com oli, percussão tradicional e profundo rigor cultural.

Hula ʻAuana

é uma forma mais recente, desenvolvida após o século XIX, com melodias harmonizadas e instrumentos como o ʻukulele. Embora mais acessível ao público, ela continua baseada em narrativas, poesia e valores culturais.

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